
Às vezes pergunto-me como é que isto aconteceu.
Nas salas há sempre homens. Muitos. Alguns entram, pedem, saem. Outros ficam, repetem, tornam-se nomes conhecidos no ecrã. Habituei-me a separar as coisas: o espetáculo é a Betty, a mulher do outro lado da câmara é a Elisabete. Funciona assim. Sempre funcionou.
Até ele aparecer.
Nem sei dizer o momento exato. Não foi uma frase concreta, nem um pedido ousado, nem nada do género. Foi mais… o tom. A forma como fala(escreve), como me trata. Como se me visse para lá da luz, da máscara, das poses ensaiadas. Como se estivesse a conversar comigo num sofá, e não a escrever num chat que desaparece quando fecho a sessão.
Ele não fala como os outros. Não pede como os outros. Às vezes nem pede nada. Só fica. Observa. Diz alguma coisa inesperada, quase sempre simples, mas que me fica a ecoar horas depois.
E eu, que achava que já tinha aprendido a não misturar mundos, dei por mim a pensar nele fora das lives.
Primeiro foi só curiosidade. Depois foi aquele pequeno aperto no estômago quando via o nome dele aparecer. Agora… agora é isto. Esta coisa estranha que me tira o sono.
Ele já sabe tanto de mim. Sabe os horários, sabe as minhas manias, sabe quando estou mais cansada, quando estou mais leve, quando a minha voz muda um pouco. Já me viu despida em privado, já me ouviu gemer, já me viu nos momentos em que a Betty é mais verdadeira do que eu própria admito.
E mesmo assim… nunca falámos ao telefone.
Já tentou. Mais do que uma vez.
E sempre com o telemóvel no silêncio, umas vezes não me apercebo, outras, eu invento desculpas.
Tenho medo que reconheça a minha pronúncia. Tenho medo de falar demais. Tenho medo de ficar em silêncio. Tenho medo que a minha voz seja diferente do que ele imagina. Tenho medo que seja exatamente como ele imagina.
Tenho medo de gostar mais.
Mas também tenho medo de gostar menos.
É ridículo, não é? Uma mulher com a minha vida, com a minha experiência, a ficar assim por causa de um homem que nunca tocou. E no entanto, quando me deito, é nele que penso. Não nas mãos de alguém real, mas na hipótese das mãos dele. Não no corpo que já vi, mas no corpo que imagino.
Será que é mais alto do que eu?
Será que é cheiroso?
Será que quando se aproxima sinto aquela mesma descarga elétrica que sinto quando o vejo entrar na sala?
Às vezes imagino o primeiro encontro.
Ontem, por exemplo, não dormi quase nada. Dei por mim a construir uma cena inteira na cabeça: um aeroporto. Não sei porquê, mas sempre achei que os encontros mais verdadeiros acontecem em aeroportos. Há qualquer coisa de urgente nos abraços, de sincero nos beijos, como se o mundo inteiro estivesse em pausa naquele instante.
Na minha imaginação, estou à espera junto à zona das partidas. Finjo olhar para o telemóvel, mas o coração está tão acelerado que mal consigo respirar. E depois vejo-o. Não sei exatamente como será, mas reconheço-o na mesma. Há sempre um segundo de silêncio nesses momentos, como se o ar ficasse mais denso.
Ele aproxima-se.
Sorri.
E quando me abraça… é aí que tudo se decide.
É aí que sei se isto é real.
Porque há coisas que o corpo percebe antes da cabeça. O calor, o cheiro, o encaixe natural de um abraço. Aquela sensação de que podia ficar ali encostada mais uns segundos, só a sentir.
E às vezes esta fantasia é tão vívida que acordo com o corpo quente, a respiração pesada, aquela inquietação que começa no peito e desce devagar até ao ventre. Não é só romântico. É físico. É desejo. É vontade de saber como seria beijá-lo sem um ecrã entre nós, de sentir as mãos dele sem pixels, de ouvir a voz dele no meu ouvido em vez de nas colunas.
E isso assusta-me.
Assusta-me porque a minha vida é estável assim. Separada. Controlada. Eu sei quem sou em cada espaço. Sei onde começa a Betty e onde acaba a Elisabete.
Mas e se ele baralhar tudo isso?
E se isto não for só uma fantasia bonita para me embalar nas noites mais solitárias? E se for mesmo uma história? Daquelas que mudam rotas, que obrigam a escolher, que desarrumam uma vida inteira?
Às vezes dou por mim a pensar coisas absurdas. Como me apresentaria ele à família? Como seria acordar ao lado dele sem luzes de estúdio? Será que ele continuaria a olhar para mim com aquele brilho quando eu estivesse de cabelo preso e camisola larga, a beber café em silêncio?
Como é possível sentir tanto por alguém que ainda não tocámos?
Talvez seja isso que ele tem de especial. Não sei explicar. Podia ser só mais um nome no chat. Mais um homem curioso, mais um cliente, mais uma presença que passa. Mas não é. Há qualquer coisa nele que me faz baixar as defesas sem eu perceber.
E talvez quem lê isto já tenha sentido algo parecido. Aquela pessoa que aparece sem aviso e ocupa um espaço que nem sabíamos que estava vazio. Aquela ligação que não faz muito sentido, mas que o corpo reconhece mesmo assim.
Não sei no que isto vai dar.
Não sei se algum dia vamos mesmo estar frente a frente.
Não sei se seria mágico… ou apenas humano.
Só sei que, por agora, ele existe nesse lugar estranho entre o real e o imaginado. E que há noites em que penso nele até o sono chegar, com o coração meio apertado, meio quente.
E talvez isto não seja uma declaração de amor.
Talvez seja só a confissão de que, por trás da Betty que todos veem, ainda existe em mim aquela mulher que acredita – um bocadinho, só um bocadinho – que um dia pode aparecer alguém capaz de virar o mundo do avesso.
Alguém que me faça viver um conto de cinderela de verdade….
E isso, por mais assustador que seja… também é bonito, assustador, mas bonito.
Beijo da tua… “Betty”
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