23 de Dezembro

Quando o passado bate à porta

Há datas que não precisam de grandes acontecimentos para se tornarem memoráveis. O 23 de dezembro é uma delas. Vive à sombra do Natal, num território suspenso entre a expectativa e a introspeção. Não é festa, não é despedida. É intervalo.

Este ano, eu não esperava nada. E talvez por isso tudo tenha acontecido.

A casa estava silenciosa, habitada apenas por luzes mornas e pensamentos dispersos. Tinha uma música antiga a tocar, daquelas que já não se escolhem conscientemente, mas que insistem em voltar quando o coração abranda. Lá fora, o mundo apressava-se para celebrar. Cá dentro, eu estava em pausa.

A campainha tocou uma única vez.

Não foi um toque ansioso. Foi contido, quase respeitoso. Como se quem estivesse do outro lado soubesse exatamente o peso daquele gesto.

Era ele.

O Luís, antigo namorado. Uma história que nunca terminou com estrondo suficiente para ser esquecida. Há pessoas que não ficam no passado, ficam numa espécie de margem emocional, onde o tempo passa mas não apaga.

Ele trazia um presente simples, embrulhado sem esforço de impressionar. Papel pardo, um cartão pequeno, letra conhecida. Reparei nisso antes mesmo de reparar no rosto. Porque certos detalhes continuam a falar connosco, mesmo anos depois.

– Passei para te deixar isto – disse-me, com a naturalidade de quem tenta não invadir.

Convidei-o a entrar. Não por impulso, mas por reconhecimento.

Sentámo-nos na sala, servi-lhe do chá que tinha acabado de fazer para relaxar um pouco. Cada um com um copo quente entre as mãos. O presente ficou fechado durante algum tempo. Não por falta de curiosidade, mas porque havia algo mais urgente: a conversa que nunca tinha acontecido da forma certa.

Falámos do que fomos. Do que não soubemos ser. Das escolhas feitas por medo, das adiadas por orgulho. Não houve acusações, apenas constatações suaves. A maturidade tem esse efeito curioso: transforma ressentimento em compreensão.

Percebi que já não éramos as mesmas pessoas. Mas também percebi que ainda falávamos o mesmo idioma emocional. Havia referências que só nós entendíamos, silêncios que não precisavam de ser preenchidos, pausas confortáveis.

A noite avançava devagar, cúmplice. As luzes da rua piscavam como se o mundo insistisse em lembrar que era quase Natal. Dentro de casa, o tempo parecia ter outra agenda.

Há uma proximidade que não passa pelo corpo. Passa pela memória. Pelo reconhecimento mútuo de quem já conheceu as nossas fragilidades antes de aprendermos a escondê-las melhor.

Quando finalmente abri o presente, encontrei um livro que eu mencionara anos antes, numa conversa aparentemente sem importância. Ele lembrava-se. E esse detalhe disse mais do que qualquer explicação possível.

O toque breve das mãos ao fechar a caixa foi quase acidental. Mas ficou. Não como faísca, e sim como calor residual. Aquela sensação subtil de que algo poderia acontecer, ou talvez já estivesse a acontecer, num plano mais silencioso, mais profundo.

Não houve promessas. Não houve planos. Houve apenas um entendimento oculto: aquele encontro não era um erro, nem um recomeço clássico. Era outra coisa. Um ponto de suspensão.

A certa altura, a conversa deixou de ser necessária. E o silêncio não pesou. Pelo contrário, envolveu-nos. Existem silêncios desconfortáveis. E existem silêncios cúmplices. O nosso era do segundo tipo.

O tempo desacelerou, como se soubesse que não era protagonista naquela noite. Cada minuto parecia consciente da sua importância, não para o futuro, mas para aquele instante específico.

Pensei em quantas versões de mim tinham passado por aquela sala desde o fim da nossa história. Pensei nas escolhas feitas para sobreviver, nas renúncias disfarçadas de maturidade. E ali, com ele novamente tão próximo, percebi algo essencial: encerrar um ciclo nem sempre é fechar uma porta. Às vezes, é abrir uma janela só para deixar o ar circular.

Não se tratava de voltar atrás. Tratava-se de compreender.

Quando ele se levantou para ir embora, já era quase Natal. O mundo estava oficialmente autorizado a celebrar. Trocámos um abraço longo, sem dramatismo. Um abraço que não pedia continuidade, mas também não negava a intensidade do que tinha sido partilhado.

– Cuida de ti – disse ele.

Há frases simples que carregam histórias inteiras.

Depois que a porta se fechou, não arrumei nada. Deixei o copo, o livro, os vestígios da presença espalhados pela casa. Algumas noites não pedem organização. Pedem contemplação.

O 23 de dezembro passou assim: sem resoluções definitivas, sem rótulos, sem finais fechados. Apenas a certeza de que certas histórias não precisam ser retomadas para continuarem vivas. Bastam encontros breves, honestos, colocados no lugar certo da memória.

Talvez isso seja maturidade:
sentir sem possuir,
lembrar sem aprisionar,
despedir-se sem apagar.

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  1. Avatar de
    Anónimo

    WOW

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