O Colega Que Reconheceu a Minha Voz

O Colega Que Reconheceu a Minha Voz

Eu começo todos os meus dias da mesma forma.

Desperto antes do sol, quando a casa e a rua ainda está mergulhada num silêncio espesso, e sinto o ar frio a tocar a pele nua. Tomo banho rápido, só para acordar o corpo, mas não o suficiente para me afastar do que já arde dentro de mim. Depois, no quarto quando começo o trabalho mais tarde, preparo o meu pequeno altar de luz — a cortina fechada, o ring light aceso, a música baixa, a lingerie que escolhi na noite anterior.

Às 07:30 eu já não sou a Elisabete.

Sou a Betty.

A mulher que respira com o peito aberto, que olha diretamente para a câmara como se estivesse a olhar alguém nos olhos. A que sente a própria pele viva. A que gosta de saber que é desejada. A que recupera o poder que um dia lhe tentaram tirar. A que sente prazer com o prazer de quem a vê.

Quando termino, desligo a câmara, apago a luz, e volto a ser eu.
Ou, pelo menos, tento.

Visto-me para o trabalho. Calças simples, blusa discreta, casaco neutro. Prendo o cabelo. Apanho o autocarro. Escuto conversas banais. Entro no escritório branco e frio onde o relógio parece que sempre avança demasiado devagar.

É aí que Elisabete vive.

Mas ela nunca é só Elisabete. Há sempre um eco da outra dentro de mim. Uma respiração que ficou, um arrepio que não desapareceu. Uma memória do corpo, no meio das minhas pernas ainda me sinto húmida e a pulsar de tesão.

E naquela manhã, esse eco foi mais forte.

Eu estava a preparar café na cozinha do escritório quando ele entrou. O Miguel.

O Miguel é o tipo de colega que nunca chama demasiado a atenção.
Calmo, educado, sorriso fácil, olhos castanhos com uma leveza que quase se confunde com distração. Trabalhamos na mesma equipa há anos. Conversas curtas sobre tarefas, clima, prazos. Nada mais.

Mas nesse dia… ele olhou para mim um segundo a mais.

— Dormiste mal? — perguntou, servindo-se de café.

Sorri, tensa.

— Não — respondi. — Só acordei cedo.

Ele riu baixinho, como quem percebe algo.

— Eu também. Aliás… estive acordado a ver… coisas.

O “coisas” ficou suspenso no ar.

Eu senti o calor subir pelo meu pescoço.

Ele continuou:

— Engraçado como… às vezes… uma voz pode ficar na nossa cabeça, não é?

Parecia casual.
Mas não era.

Não era nada casual.

Eu tentei manter-me firme, mexendo o café como se aquilo fosse a coisa mais importante do mundo.

— Sim — respondi. — As vozes por vezes ficam.

Ele aproximou-se meio passo. Só meio. Mas bastou.

— Eu ouvi uma mulher esta manhã… — disse, baixo, como se estivesse a contar um segredo só nosso. — Uma voz quente. Segura. Daquelas que entram na pele, sabes? Que nos faz sentir, mesmo sem tocar.

O meu coração batia contra as costelas.

Ele deu mais um meio passo. Ficou perto o suficiente para que eu pudesse sentir o cheiro do seu perfume — amadeirado, delicado, familiar demais.

— E… por um momento… — continuou — achei que parecia contigo.

Eu deixei escapar o ar pela boca.

Não foi um suspiro. Foi rendição.

— Comigo? — ainda tentei sorrir, como quem desvia o assunto.

Mas ele não desviou.

— Sim — disse. — Contigo.
Com a tua voz.

E então, ele inclinou ligeiramente o rosto, como quem examina algo invisível, algo que se sente mais do que se vê.

— Sabes aquelas vozes que parecem… tocar-nos? — perguntou, com calma. — Aquela voz sabia exatamente o que estava a fazer ao dizer cada palavra. Mesmo sem mostrar nada… já estava a mostrar tudo.

Eu engoli em seco.

Ele sabia.

Ou, se não sabia, estava perto demais de saber.

— Que coincidência — murmurei, baixinho.

O Miguel sorriu.
Mas não foi um sorriso inocente.

Foi lento. Lúcido. Quente.

— Talvez — respondeu. — Mas… coincidências geralmente não me fazem perder o sono.

Houve um silêncio.
Mas não era vazio.

Era o tipo de silêncio que se cola à pele.

E naquele instante, algo mudou no ar.
Não era desejo direto.
Era algo mais perigoso:

reconhecimento.

Ele viu.
Ele sentiu.
Ele (acha que…) percebeu.

Não o corpo, não o espetáculo, não a imagem.
Mas a mulher por trás dela.

A Betty dentro de mim respirou fundo.

Eu dei um passo para trás, porque era isso que Elisabete faria.
Peguei no copo de café, respirei, tentei normalizar.

— Bom trabalho, hoje temos reunião às 10 — murmurei, voltando à segurança do habitual.

Mas antes de eu sair da cozinha, ele disse — com a mesma voz baixa que eu uso nas lives:

— Se quiseres… posso fazer café para ti amanhã também.
À mesma hora.

Eu parei na porta.

Não olhei para trás.
Se olhasse, eu sabia que algo ia acontecer.
Algo que talvez eu não estivesse pronta para segurar.

Mas sorri.

Pequeno.
Quase invisível.
Mas real.

— Talvez — respondi.

E voltei ao escritório como quem caminha com um segredo novo preso aos lábios.

Ele não sabe.
Ou talvez saiba. Escolho tentar acreditar que ele não sabe.

Mas desde esse dia…

Quando o Miguel fala comigo, o corpo lembra-se antes da mente.
E às vezes, quando estou em frente à câmara, às 07:30, eu imagino que ele está a ver.
Só a ver.

E a ouvir.

A minha voz.

E isso, só isso…

Já me aquece e deixa húmida de um jeito que eu não sei explicar.

One response to “O Colega Que Reconheceu a Minha Voz”

  1. Avatar de
    Anónimo

    coincidencias…..mas o mais fantástico, é que ambos têm a certeza de sabem, mas preferem ficar com a dúvida, do “será que é”, “será que sabe?”, até um dia que o filtro caia, e se deixem embrenhar pelos desejos 🔥

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Os Segredos da Betty

O lugar onde a Elisabete e a Betty são uma só…

“Betty’s Secrets” é o lugar onde a rotina de uma mulher comum encontra o inesperado.
Aqui, Betty, recatada e tímida, revela a sua vida dupla: durante o dia, é discreta; à noite, e sempre que está sozinha no trabalho ela transforma-se numa mulher ousada que explora os seus desejos mais profundos em shows online eróticos e porno, em público ou privado.
Entre confissões e contos provocantes, descobre os segredos de quem ousa viver entre o real e o proibido.
Bem-vindo ao universo da Betty, onde nada é o que parece.