Uma escapadinha à Serra de Monchique

Havia semanas que sentia o corpo cansado, a mente saturada e o coração inquieto. A cidade já não me dava prazer. A rotina, o barulho, os encontros superficiais… tudo me parecia vazio. Eu precisava fugir. Respirar fundo. Sentir algo real.
Foi assim que me decidi por Monchique. Nada de multidões, de praia cheia de corpos tostados ao sol. Eu queria o verde, o silêncio da serra, o som das folhas ao vento e o cheiro da terra quente. Encontrei um lugar com um nome bonito e simbólico: “Quinta do Tempo”. Soava a refúgio e a pausa. Reservei sem pensar duas vezes. Ia fazer um retiro silencioso, comigo mesma.
Cheguei na sexta-feira ao fim da tarde, com o sol ainda a dourar as encostas. A quinta era tudo o que eu esperava – rústica, acolhedora, rodeada por árvores de fruta e flores silvestres. O quarto tinha vigas de madeira, lençóis brancos e uma janela aberta para o verde. Despi-me devagar, respirei o ar da serra e deitei-me nua sobre a cama fresca. Naquele momento, decidi que não ia fazer planos. Ia apenas deixar-me levar.
No sábado, depois de um pequeno-almoço com pão caseiro, figos maduros e mel, subi até à vila. Queria passear sem pressa. Deambulei pelas ruelas estreitas, entre fachadas caiadas e janelas com cortinas de renda. O calor era suave, o ar perfumado com notas de eucalipto, pinho e alecrim.
Foi numa esplanada da praça principal que o vi. Alto, cabelo grisalho preso num coque, braços fortes, pele clara e olhar sereno. Estava a ler um livro de capa gasta e a beber uma cerveja. Quando me sentei na mesa ao lado, ele olhou para mim e sorriu com uma gentileza desarmante.
— Não és daqui — disse ele, com um sotaque suave mas firme.
— Percebe-se assim tão facilmente?
— És como uma chama acesa no meio da bruma — respondeu, sorrindo.
O nome dele era Albert, belga, reformado cedo do mundo da arquitetura, agora escultor de madeira e alma livre. Tinha uma casa nas encostas da Fóia, onde passava temporadas longe da civilização. A conversa fluiu como um riacho. Mostrou-me os cantos secretos da vila, levou-me a uma loja de produtos artesanais, a uma fonte escondida entre castanheiros, subimos ao convento abandonado e acabámos por jantar no restaurante A Charrete, partilhando um prato fumegante de Cozido de Couve à Monchique e um tinto alentejano encorpado.
No final, convidou-me:
— Tomamos um digestivo no meu refúgio?
A noite estava quente, o céu salpicado de estrelas, e algo em mim já sabia que diria sim.
A casa dele era como ele: simples, sólida, cheia de alma. Limpa, mas cuidadosamente desarrumada, como de quem não está à espera de visitas. No alpendre, um baloiço de madeira pendia entre duas vigas. Sentámo-nos ali, com vista para o mar muito ao longe. Tínhamos um copo dum licor da região (feito de mel e aguardente) suave nas mãos e uma manta sobre as pernas. O silêncio entre nós era confortável, cheio de tensão doce.
Quando ele pôs uma música etérea a tocar — um misto de jazz e sons tribais — levantou-se e estendeu-me a mão.
— Danças comigo?
Levantei-me, e os nossos corpos começaram a mover-se devagar, colados. Os olhos dele fixos nos meus, as mãos firmes nas minhas ancas. A música parecia embalar os nossos instintos. A minha respiração ficou mais curta, o coração acelerado.
E então ele beijou-me. Devagar. Com uma boca quente, sedenta. Senti a língua dele explorar os contornos dos meus lábios, o queixo, a clavícula. As suas mãos subiam e desciam pelas minhas costas como quem lê um mapa antigo. Quando me despiu, fê-lo com cuidado. Primeiro a t-shirt, as calças de ganga e depois a lingerie, peça por peça, como se desembrulhasse um presente.
Fiquei nua sob a luz amarelada do alpendre, sentindo o ar da serra acariciar a pele. Ele ajoelhou-se diante de mim, passou os dedos pelos meus joelhos, subindo pelas coxas até encontrar o centro quente e já húmido do meu desejo. Tocou-me com uma precisão que só o tempo ensina. Os seus olhos não largavam os meus. O prazer começou lento, como um murmúrio.
Conduziu-me para dentro, para a sua cama de madeira, coberta por lençóis de algodão cru e mantas de lã macia. Disse-me ao ouvido que era praticante de sexo tântrico, que não tinha pressa e que me queria inteira, entregue.
E assim foi.
As nossas peles colaram-se em movimentos circulares. Ele alternava entre me tocar com os dedos e com a língua, entre lamber cada mamilo como se fosse a última gota de mel e beijar o ventre como quem reza. Quando me penetrou, fê-lo devagar, fundo, com os olhos fixos nos meus. Era como se respirássemos em uníssono. A tensão subia e descia em ondas. Cada movimento tinha intenção. Cada gemido meu era respondido com um sussurro dele.
— Estás linda assim. Quente, entregue, viva.
Tive o primeiro orgasmo enquanto ele me penetrava e pressionava com os dedos o ponto exato entre as minhas ancas. O segundo veio quando ele me virou de lado e me segurou firme contra o seu peito, entrando devagar, como se meditasse em mim.
O terceiro… foi quando ele me deitou de costas, abriu as minhas pernas e mergulhou o rosto no meu sexo com fome e devoção. As pernas tremiam. A alma flutuava.
Depois, deitados no escuro, suados e saciados, os dedos ainda entrelaçados, ele murmurou:
— És uma mulher que se sente com os cinco sentidos.
Sorri. Naquela noite, dormi profundamente. E pela manhã, antes de ir embora, deixei-lhe uma flor silvestre da serra sobre o travesseiro e um bilhete:
“Obrigada por me devolver o corpo. E a calma. Beijo grande e molhado da tua Betty”
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